Objetivo: Estudos    http://jesuscomkardec.blogspot.com/

 

Do livro “O Sexo Além da Morte”

Obra mediúnica de Ranieri pelo espírito de Eleutério.

 

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Após terem vindo do límiar do submundo

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XXIX  - Carla

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Os vapores do álcool, as radiações do fumo, e as ondas de sexualidade que emanavam das criaturas encarnadas e mesmo desencarnadas que os espiavam, haviam me perturbado um pouco e o ar fresco da noite fez-me bem. Eleutério conduziu-me para fora da cidade, no campo, e em breve vimos uma casa Iluminada onde gargalhadas alegres cortavam o ar.

 

— Ali, é o tugúrío de Carla, esclareceu o Bom Amigo. Algumas mulheres de alta classe, reunidas por Carla recebem homens de categoria e passam a exercer o comércio carnal, o preço é alto, mas quase todos são homens ricos, capitães de indústria ou elementos do alto comércio. Ninguém se envolve com eles, nem a polícia. E Carla, meu amigo, legisla com imponência e classe, respeitada e querida por essa gente. É certo, que o povo da cidade considera-a uma prostituta, mas não chega a classificá-la de “vulgar”. Falam de suas orgias, etc.  Os rapazes da sociedade e os estudantes aparecem lá de vez em quando e ela tem a gentileza de tratá-los bem, abrindo mão quase sempre de qualquer pagamento.

 

Ouvi surpreso as palavras de Eleutério.   Todavia, silenciei.

Logo, estávamos à porta da casa, realmente bonita e bem montada, ao gosto rústico, onde a madeira envernizada tinha o seu lugar de honra.

Notei logo à entrada, uma mocinha linda, de pouco mais de dezoito anos, de olhos sonhadores, cabelos negros caídos sobre os ombros, tez morena. Parecia na realidade moça de família.

 

— Parece e é, acrescentou Eleutério. Carla recruta essas moças na Capital e aprisiona-as neste recanto. Não podem sair sem sua ordem e obedecem rigorosamente as suas instruções. O dinheiro que ganham lhe é entregue religiosamente nas mãos e ela dá de volta apenas uma pequena parte. Cerca-as porém do máximo conforto.

 

De surpresa em surpresa, entrei acompanhado do instrutor e defrontei a seguir belíssima japonesa, de short e pernas maravilhosamente torneadas. Os olhos apertados e os lábios sensuais davam-lhe uma nota diferente. Compreendi logo porque os homens a amavam. Seu nome era Ieda. Fiquei comovido e penalizado. Alguma coisa falava dentro de mim de um antigo amor, não sei onde nem quando. Ela pareceu sentir-me a presença porque suspirou fundo e procurou-me com o olhar. Entrava uma loura espalhafatosa e Ieda lhe disse:

 

— Maria, não sei o que me deu agora. Pareceu-me ver ali um homem louro que me fitava triste. Depois desapareceu. Tive a impressão de que já o conhecia, mas não sei quem é. Esquisito, senti imensa ternura por ele.

 

— Não é à toa que às vezes penso que você está ficando louca, quando diz que quer deixar esta vida, gargalhou Maria.

 

A japonesa ficou pensativa. Seus traços leves e absolutamente femininos davam-lhe uma expressão de maravilhosa pureza. Olhei-a com carinho e passei.

 

Onde eu a encontrara?

 

— As vidas sucessivas explicam perfeitamente esse fato, falou Eleutério. A impressão de reconhecermos alguém, de imediato, quando na carne, as simpatias espontâneas e as antipatias que brotam de improviso denotam que defrontamos velho amigo ou antigo inimigo. No caso presente, meu caro, você se encontra diante de velha conhecida de Paris e do Oriente.

 

— Se você procurá-la na carne verificará que dela nascerá por você um amor espontâneo e rápido. Provavelmente dirá:

 

— Parece que eu já o conheço há muito tempo! De onde?

 

— E você, naturalmente, não saberá responder ou dirá: foi em outra vida!

 

Realmente, meu coração palpitou mais intensamente diante da japonesa. Passei e vi que os quartos estavam bem decorados, com cortinas de rendas longas e na realidade todos os quartos perfumados, semelhavam quartos de mocinhas educadas, de boas familias. Não faltavam é lógico, os espíritos ligados ao sexo que por ali andavam unindo-se a uns e outros.

 

Que era bordel era, embora bordel de alta classe, mas os espíritos que ali estavam denotavam o mesmo teor vibratório mental daqueles que vivem no sexo e para o sexo, insaciáveis e tristes. Faces transfiguradas, membros sexuais de enormes proporções, olhares fusilantes e as mãos semelhantes a garras. Era o amor livre e o espírito, evidentemente entrega-se totalmente às sensações que o dominam. Voltava-me à mente as indagações permanentes: como podia o sexo que era sagrado e o prazer do sexo que era criação de Deus degenerar daquela forma? Seria degenerescência ou tudo aquilo na Ordem Universal da Natureza seria absolutamente normal? Só Eleutério poderia me responder mas o Espírito havia se afastado em busca de Carla e eu fiquei com meus pensamentos. A japonesa parecia ver-me porque sorria.

 

Procurei Eleutério. Encontrei-o após. Carla estava deitada, descansando. Nossa entrada na casa parece que mudara, pela vibração do grande espírito, a vibração do ambiente. Embora na sala alguns casais se divertissem no jogo sexual, algumas mulheres passaram a manter-se pensativas. Passando pelos corredores, vi nos quartos casais que se amavam, que se beijavam ou que se entregavam ao desvario do amor. O pensamento de Carla agora flutuava como balão que subisse lentamente. Lembranças esquisitas dominavam-lhe a mente. Lembrava-se da Infância de menina pobre, dos pais, agora velhos e que naquele tempo nada podiam lhe dar, no moço bonito que a desvirginou, naqueles anos todos de sofrimento perambulando pelos caminhos da prostituição e enfim a casa que montou com esforço e que agora se tornara naquele local de concentração de gente rica, que lhe trazia o dinheiro nas mãos. Ela que se acostumou a ser dura, teve pensamentos de amor pelas meninas e fez propósitos de ajudá-las materialmente. Libetá-las, porém, nunca!

 

— Está vendo, falou Eleutério. É sensivel à nossa aproximação, no entanto, não abre mão do direito de escravizar. As infelizes permanecerão aqui ainda por muito tempo porque ela não permitirá nunca que conquistem uma vida melhor.

 

Entidades perversas que dominavam Cana afastaram-se dela assim que nos aproximamos. Embora não nos vissem, murmuraram entre si:

 

— Vocês não acham que há qualquer coisa esquisita no ambiente? dizia uma.

 

— De fato, falou outro. Nota-se algo estranho e indefinido. Parece que Carla mudou e está pensando em se regenerar. Temos que estar vigilantes porque não iremos permitir isso!

 

— Não, não! — afirmou um terceiro. Abandonar esta vida ela não abandonará! Depois, é preciso que se saiba que isto também é nosso! Não fomos nós que ajudamos, encontrando os fregueses para ela? Se não fôssemos nós ela jamais teria tido êxito! É verdade que em troca nós nos divertimos e vivemos a vida, unidos a esses casais. Mas a realidade é que sem nós, Carla não seria ninguém!

 

Ouvimos e ficamos admirados.

 

— É assim mesmo, meu filho, ensinou mansamente Eleutério. Ela escraviza as moças e os vampiros a. escravizam. Ela comercializa a carne das meninas e eles respiram sensações sexuais deste lado. Por sua vez, não tem coragem de sair daqui e passarão anos nessa situação, por sua vez, também escravizados, na própria armadilha que criaram.

 

— Bem, arrisquei um pensamento, mas um dia Carla e as moças morrerão, não é verdade. E eles para onde irão?

 

— Para outro bordel, até que a Lei os atinja. Aí então descerão ou entrarão em crise terrível. Poderão ficar loucos e buscarão o Vale. Ou começarão a perceber a decadência da forma perispiritual. De qualquer jeito terão que defrontar a inexorabilidade da Lei que sempre funciona. Não fugirão à regra. Um dia despertarão para o sentimento do infinito e virão de alma esfarrapada rezar no Altar de Deus.

 

A brisa, lá fora começava a soprar e nós resolvemos aspirar um pouco o ar do campo.

 

XXX - A japonesa

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Lá fora, vi com surpresa que a pequena e bela japonesa contemplava o jardim em volta da casa com ar pensativo.

 

Imensa ternura dominou-me o coração.

 

— Ela está pensando em fugir, disse o Espírito, e mais do que iIsso, pensa em fugir a esta vida sexual, agora sem sentido para ela.

 

— O que há entre nós, Eleutério? Perguntei envergonhado. Profunda atração me arrasta para essa menina e enorme piedade penetra minha alma ao vê-la.

 

Eleutério sorriu compreensivamente.

 

— Coisas de um passado distante, meu filho. Você já viveu no Oriente, foi também mongol, de cabelos hirsutos e bigodes longos de chines caídos sobre a boca. Comandante de legiões de hunos, assolava a terra em seu corcel de morte e por onde passava conduzia a devastação. As moças que encontrava com seus homens eram repartidas. Escolhia para si a melhor. Essa é uma daquelas que durante muito tempo, arrebatada dos pais pela sua violência, acompanhou-o nas lutas e nas guerras. Depois, reencarnou muitas vezes e o perdeu de vista. Ela contudo ainda ama o cavaleiro audaz que no fundo de sua memória integral galopa os corcéis da morte.

 

Quer ver?

 

Dizendo isso, Eleutério aproximou-se da menina e colocou-lhe a dextra na fronte. Imediatamente tudo clareou e passei a ver como num filme, vastos campos onde cavaleiros em disparada devoravam o espaço. Pequena aldeia aproximava-se e à frente da brigada selvagem, enorme huno ou mongol cavalgava belíssimo corcel. Em seus olhos brilhava a paixão da guerra e a voracidade sexual. Entraram na aldeia e passaram os seus habitantes a fio de cimitarra. As mulheres, porém, agarradas na fúria da invasão eram colocadas na garupa dos animais que partiam como relâmpagos. O Chefe huno, entrou na casa do chefe da aldeia, arrancou-lhes a filha de dezoito anos dos braços e levou-a como um demônio. Não matou os velhos, apenas lhes disse:

 

— Nada temam. Sou o Chefe e vou fazê-la nossa rainha.

 

Outras cenas se sucediam mas nós estavamos chocados. Aquele homem selvagem eramos nós, no entanto, quando?

 

Eleutério bateu-me nas costas e confortou-me:

 

— Não se preocupe, meu filho, todos nós viemos da inconscência para a consciência e iremos para a razão humana e depois para a razão divina através da angelitude.

 

Agradeci a bondade do Amigo. Meus olhos estavam cheios de lágrimas e não pude furtar-me a imprevisto gesto de ajoelhar-me perante a mulher e beijar-lhe as mãos delicadas. Pareceu perceber porque retirou a mão depressa e recuou assustada. Olhou por todos os lados e depois disse para si mesma:

 

— Não é nada, pensei que alguém me beijava as mãos e me pedia perdão.

 

Será que estou ficando louca?

 

Disse e correu para dentro.

Fiquei, todavia, ali, ajoelhado. Soluços pungentes cortaram-me o peito.

Era eu o causador de tanta infelicidade! O que fazer para recuperá-la?

 

— Não se desespere, compadeceu-se Eleutério. Ela já está numa atitude mental favorável. Iremos requisitar o Grupo de Salvação dos Samaritanos para acabar de libertá-la e em breve você a reencontrará em um de nossos hospitais.

 

Meus soluços cessaram às palavras do Espírito e compreendi porque Eleutério me levara até ali onde o passado distante se me tornara um presente terrível. Na realidade, eu sentia que me encontrara a mim mesmo com todas as misérias guardadas no tempo.

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Do livro “O Sexo Além da Morte”

Obra mediúnica de Ranieri pelo espírito de Eleutério.

 

No inicio do livro Ranieri diz que este trabalho é orientado  pelo Espirito de Andre Luiz e que após escrito esperou 22 anos por autorização para vir a público, datado de:

Guaratinguetá, 2 de dezembro de 1972

 

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